Entrevista com Ir. Afonso Murad

  • Como a emoção contribui para a educação?

A emoção contribui para a educação porque a gente só aprende a partir de uma motivação, de um “para que” e, cada vez mais, tanto as pesquisas da educação, quanto a prática têm mostrado que o desejo de aprender e o próprio processo de reter as informações e de transformar os dados em conhecimentos pressupõem um envolvimento da emoção. Portanto, aquela ideia antiga de que a mente, a razão, era separada da emoção, hoje está caindo. Todo processo de aprendizagem significativo comporta, simultaneamente, uma compreensão de si e do mundo e um envolver-se com ele. Nesse sentido, recordamos a famosa frase de Paulo Freire “a razão encharcada de emoção” e vemos a perspectiva de vários educadores contemporâneos que incorporam as artes visuais, a música, o movimento do corpo, porque, têm cada vez mais consciência que a gente aprende no corpo inteiro e não somente com a mente.

  • Como a espiritualidade pode contribuir com a educação?

A espiritualidade tem a ver com educação de uma maneira mais profunda. Se compreendemos a espiritualidade como aquele processo de busca do ser humano por um sentido maior da existência, por um sistema de valores que muitas vezes está implícito, mas que configuram as grandes opções das pessoas, as suas escolhas, aquilo que é o “sim e o não” para a existência, então, percebemos que a espiritualidade tem muito a ver com o processo de ensino e aprendizagem.

  • Como a educação e espiritualidade ajudam na formação do ser humano?

A educação integral é aquela que ocasiona para educandos e educadores experiências de vida nas quais se explicita os valores e conhecimentos que fazem referência a algo mais ou a alguém mais. Nesse sentido, a educação marista e a educação de escola confessional não somente ajudam os educandos a trabalharem, a elaborarem e reelaborarem o seu conhecimento, mas também, ajudam a configurar a sua vida com sentido, a desenvolver valores humanos como o cuidado, o respeito, a interrelacionalidade e a capacidade de ouvir. Tudo isso nos faz mais humanos e, consequentemente, mais abertos à revelação de Deus, à oferta da graça de Deus.

  • Para nos tornarmos mais humanos, a espiritualidade é essencial, como vimos acima, porém, quais os elementos que compõem a espiritualidade?

Há um certo equívoco na atualidade, que é quando confundimos a espiritualidade com as práticas devocionais, com os ritos religiosos e com as práticas religiosas. Se nós pudéssemos comparar o ser humanos com uma bela e formosa árvore, diríamos que a espiritualidade é a seiva, que a gente não vê, mas que alimenta toda a árvore, até a ponta de suas folhas mais altas. Na árvore, a seiva não é visível, somente suas folhas, flores e frutos. Os ritos e devoções compreendem às flores, folhas e frutos, que são visíveis e encantadores, mas sabemos que a seiva de uma árvore é captada e elaborada lá embaixo, nas suas raízes. As raízes dos seres humanos são aqueles valores mais profundos que, de alguma forma, o colocam em contato com toda existência da humanidade. A espiritualidade é mais profunda. Uma espiritualidade adequada para a educação deve ser enraizada com a uma experiência humana e conectada com o Divino.

  • A prática religiosa em algum momento pode se tornar vazia ou artificial?

Na Bíblia, os profetas denunciaram essa espiritualidade. O livro do Profeta Izaías, começa com um grande discurso de Deus dizendo ao povo que está indignado, porque as ofertas religiosas não correspondem à prática de bondade e justiça. Em Izaías 1, o Profeta diz: “de que adianta vocês me trazerem ofertas, se as mãos de vocês estão sujas de sangue?”, muitas vezes as práticas religiosas, principalmente de grupos extremistas e ultra conservadores são eivadas de intolerância, de desamor e, por isso, de uma espiritualidade ilegítima de qualquer tradição religiosa. A espiritualidade comporta mudança em direção ao bem, uma capacidade de acolher o outro em suas diferenças, diríamos na linguagem cristã que é um processo de conversão. Somos seres humanos de luz, mas também de sombra. Seres luminosos, mas também, tenebrosos. A espiritualidade, nesse contato com o Deus vivo, nos ajuda a nos deixar iluminar com a luz de Deus e, também, a incorporar, acolher e superar nossas dimensões de sombras, de trevas.

  • Como espiritualidade faz parte do ambiente escolar?

Primeiro, é necessário um compromisso dos gestores das escolas com a espiritualidade como um todo, depois o compromisso dos educadores. O compromisso dos gestores tem a ver com criar um clima favorável para o desenvolvimento da espiritualidade, esse clima comporta, antes de tudo, qualidade nas relações. Relações cordiais entre educadores, gestores, funcionários e alunos. O primeiro sinal de uma instituição espiritualizada é a qualidade nas relações.   O brilho no olhar, a amizade entre todos e o cuidado com todos são critérios fundamentais, além disso, uma instituição espiritualizada valoriza o processo de gestão participativa, pois crê que o espírito de Deus atua em todas as pessoas, independente de cargo ocupado e condição intelectual, por isso, quanto mais espaço participativo e colaborativo entre todos, maior a possibilidade de se desenvolver a espiritualidade. A espiritualidade também se explicita com momentos, com práticas e com espaços celebrativos. A celebração da Páscoa, da campanha da fraternidade, a festa do Fundador, os momentos de formações, são espaços para explicitar e fazer crescer a espiritualidade; são ocasiões para a gente ter consciência dessa seiva de Deus que circula em nós.

A espiritualidade na escola se expressa por tudo o que se faz para cultivar os valores humanos  e se evitar uma visão pessimista. Um olhar espiritual é capaz de ver sementes de vida nas pessoas e fazer cultivar essa semente, para que a gente faça parte de uma grande corrente de bem e do bem. O espírito de Deus suscita essas atitudes novas e renovadas.

  • Como a espiritualidade contribui para uma sociedade melhor?

Há um viés da espiritualidade hoje que tem a ver com a inclusão. Acolher pessoas de diferentes etnias; superar qualquer forma de racismo; acolher e tratar com carinho pessoas deficientes físicas ou com limitações do ponto de vista do desenvolvimento mental; tudo isso, diz respeito à inclusão e são sinais de que a espiritualidade se desenvolve; além disso, a consciência ecológica, traduzida em práticas efetivas, pessoais e comunitárias de cuidado com nossa casa comum, são sinais.

 

 

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